Imagem: A estação de trem – Reginaldo Lima
Esperou anos para que tudo se resolvesse. Mais um pouco e acreditaria que a absoluta ausência de mudança seria sua única possibilidade.
Enquanto coava o café, se lembrou da árvore de tronco cheio de espinhos que tentava subir na infância. Olhou para as cicatrizes das mãos. Riu sozinha.
Deixou o café ainda pingando e ligou apressada.
- Alô.
- Sou eu.
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu. Preciso ir.
- Ir aonde?!
- Preciso ir…juntar todas as penas de mim e criar asas. Preciso ir.
- Você está louca?! E a casa? E as suas coisas? E…além do mais, duvido que você vá!
Foi assim. Viveram juntos e se separaram.
Faltou que ele dissesse ao menos que não queria que ela fosse embora e que sentiria saudades.
Varou noites em claro, gritou escondida, chorou sozinha e até mesmo no meio da multidão, optou por não contar à ninguém para logo depois contar a um por um de seus amigos, como quem se confessa buscando absolvição, mudou de planos incontáveis vezes e tentou ser forte.
Passaram – se meses e ela o reencontrou no trem, cercados de coadjuvantes que nunca fizeram parte de sua história.
Ele finalmente disse à ela tudo que ela queria ouvir. Até mesmo aquelas frases que ela julgou que nem mesmo nascendo novamente ele lhe diria. Logo depois lançou aquele sorriso que ela conhecia tão bem – não importa quanto tempo faça, ela me quer de volta.
Ela afastou os braços dele delicadamente com as mãos. A delicadeza de quem soube usar os espinhos para chegar ao alto e enxergar novos horizontes.
Desejou a ele toda a sorte que pudesse alcançar, depositou um beijo em seu rosto e lhe acenou batendo os cílios.
O trem chegou à estação. A porta do vagão se abriu. Sua vida também.
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Luciana Vaz
