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Os cafés são o centro de toda ação

“O meu gosto pelos cafés não é tanto pelo que lá posso encontrar para beber ou comer. E muito menos pelo fumo, que me incomoda de sobremaneira. É antes pela capacidade que esses espaços têm para captar personagens diferentes. É um ponto de cruzamento. E os melhores cafés são aqueles que têm misturas, uma grande mistura de cores, cheiros, culturas, idades.

Como diria o escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) o destino da humanidade é a diversidade. E o café é o sítio onde se pode assistir a esse futuro, observar essa tal diversidade. Isso nem sempre acontece nos cafés da moda, destacados pelos guias de viagem, muitas vezes invadidos pelos turistas e que vão perdendo a sua cor local.

É preciso partir em busca de um espaço anônimo, onde entram alguns turistas, mas onde o que sobressai são as pessoas que fazem parte daquela cidade, daquela cultura. Onde se cruzam turistas, mas também estudantes, empresários, donas de casa, reformados, etc. Por essa razão não posso distinguir um café em Havana, por exemplo, uma vez que os cubanos – que não têm dinheiro para o café – preferem juntar-se nas ruas de Havana velha, no mercado.

Percebo quem gosta de ir em busca da natureza, da praia, das montanhas. Mas sou um bocado tipo Woddy Allen: a montanha é engraçada, bonita, óptima para respirar mas ao fim de dois dias já estou a procurar os sítios onde se pode ir ao cinema, encontrar pessoas, ver exposições, etc. Na praia passa-se o mesmo: gosto muito, até mais do que a montanha, mas tenho que ter um espaço para me sentar, ler, conversar com os amigos. Porque o que eu gosto mesmo é de viajar em busca das pessoas. Gosto dos sítios, mas para mim os espaços sem as pessoas ficam incompletos. Eu gosto mesmo é das pessoas. Viajo sempre um pouco com o espírito do ornitólogo, mas em vez de aves observo as pessoas.

A possibilidade de naquele momento, naquele espaço se cruzarem pessoas que talvez nunca mais se encontrem ou se calhar até se vão conhecer daqui a cinco anos, mas entretanto já se cruzaram sem dar por isso, exerce sobre mim um enorme fascínio. É esta idéia de sincronia (estão todos – cada um com a sua história, com a sua particularidade – ali, no mesmo dia, à mesma hora) que me faz estar alí, sentado.

A idéia de ir observando é essencial num café.  Ali, naquele espaço, assiste-se à vida, ouve-se falar línguas diferentes, pronúncias distintas da mesma língua, ouvem-se pedaços da vida de alguém como se fossem episódios de uma série inacabada, em que o final pode ser desenhado pela nossa imaginação. Se calhar é um pouco deformação profissional: o gosto por observar pessoas. E os cafés são o centro de toda a acção.”

Nuno Artur Silva, excerto da crônica “Visto por”, publicada no suplemento Fugas do Jornal Público (Portugal), de 17.02.2008

Estátua de Fernando Pessoa, posicionada na mesa preferida do escritor, no café A Brasileira, localizado junto ao Largo do Chiado, em Lisboa.
Estátua de Fernando Pessoa em sua mesa preferida no café A Brasileira, localizado junto ao Largo do Chiado, em Lisboa.