Uma única caixa

Fotografia: Light bulb over wooden box ( Penelope Edgar/Zefá )

– Sim, Ana passou aqui.

Colocou toda sua vida em uma caixa.

Uma única caixa.

Teve o cuidado de deixar sem tampa. Me disse que sua vida precisava de ar fresco.

Colocou com esmero meia dúzia de sonhos  nos ombros e foi.

É uma pena que você não tenha chegado um pouco mais cedo, teria se encontrado com ela.

– Sim, Ana passou por aqui.

Destinatário: Você

Querido,

Já perdi a conta de quantas vezes hoje tive desejo de te escrever coisas bonitas e aproveitar para te contar todas as verdades do meu mundo que você não assistiu nestes dias ausente.

O melhor que consegui são essas linhas que não contam tudo, mas que você lê agora.

É nas horas que penso em te escrever que sinto uma inveja ladra, uma vontade de roubar a inspiração de todas as pessoas que sempre amei ler em minha vida.

De qualquer forma, queria te contar que o mais inesperado nesses dias foi perceber que as coisas mais inusitadas serviram para te trazer para junto de mim.

Na quinta-feira indo para o trabalho, olhei pela janela do ônibus e tive um desses momentos.

Uma moça se espreguiçava na sacada de um desses edifícios antigos do centro da cidade, um solzinho brando batia na janela, o rapaz fazendo uma dancinha divertida tentava a qualquer preço roubar seu sorriso.

Ela sem relutar, sorriu.

Talvez essa história não faça sentido pra você. Talvez faça.

Mas foi extremamente significativa pra mim, me provou que até no amor alheio, consigo ver um reflexo do nosso.

As saudades crescem.

Amor

A porta se abriu

Imagem: A estação de trem – Reginaldo Lima

Esperou anos para que tudo se resolvesse. Mais um pouco e acreditaria que a absoluta ausência de mudança seria sua única possibilidade.
Enquanto coava o café, se lembrou da árvore de tronco cheio de espinhos que tentava subir na infância. Olhou para as cicatrizes das mãos. Riu sozinha.
Deixou o café ainda pingando e ligou apressada.
– Alô.
– Sou eu.
– Aconteceu alguma coisa?
– Aconteceu. Preciso ir.
– Ir aonde?!
– Preciso ir…juntar todas as penas de mim e criar asas. Preciso ir.
– Você está louca?! E a casa? E as suas coisas? E…além do mais, duvido que você vá!
Foi assim. Viveram juntos e se separaram.
Faltou que ele dissesse ao menos que não queria que ela fosse embora e que sentiria saudades.
Varou noites em claro, gritou escondida, chorou sozinha e até mesmo no meio da multidão, optou por não contar à ninguém para logo depois contar a um por um de seus amigos, como quem se confessa buscando absolvição, mudou de planos incontáveis vezes e tentou ser forte.
Passaram – se meses e ela o reencontrou no trem, cercados de coadjuvantes que nunca fizeram parte de sua história.
Ele finalmente disse à ela tudo que ela queria ouvir. Até mesmo aquelas frases que ela julgou que nem mesmo nascendo novamente ele lhe diria. Logo depois lançou aquele sorriso que ela conhecia tão bem – não importa quanto tempo faça, ela me quer de volta.
Ela afastou os braços dele delicadamente com as mãos. A delicadeza de quem soube usar os espinhos para chegar ao alto e enxergar novos horizontes.
Desejou a ele toda a sorte que pudesse alcançar, depositou um beijo em seu rosto e lhe acenou batendo os cílios.
O trem chegou à estação. A porta do vagão se abriu. Sua vida também.

Preciso ir

Imagem: Colorful stairs – Julie Eggers


– Não me olha desse jeito! (em desespero)
Já te disse…se a gente se separar hoje ou daqui a vinte anos, pouco importa porque de qualquer forma eu não vou conseguir te esquecer! Não conseguiria isso nem que eu quisesse!
O que eu preciso é desaparecer por um tempo, pra tentar descobrir se ainda há algo em mim, que não seja parte você!
Silêncio
– Mas olha…eu volto! Com sorte, volto reconstruído, mais feliz, mais eu e com uma outra visão de tudo isso. Talvez me torne esperto o suficiente pra reconhecer que você é acima de tudo meu vício.Te provar e ir embora novamente é uma alternativa que simplesmente não existe pra mim!
Não existe! Você está me ouvindo bem?
( em tom alto, como se quisesse me fazer ouvir a todo custo)
Será que algum dia me você me ouviu? (em sussurro)
Silêncio ensurdecedor
– Não me olha assim.
(em súplica – se continuar agindo dessa forma não saio nem da frente dos teus olhos, quanto mais de sua vida!)
Uma coisa eu te digo, se eu sair por aquela porta, volto só quando puder te olhar na cara e desejar seu bem e sua felicidade, mais do que hoje desejo a minha.
Sento e me desespero
– Calma! Calma pelo amor de Deus!
Não! Eu não acredito que a nossa história se resume nesse amontoado de encontros e desencontros.
( em voz alta pra me convencer )
Você quer saber no que eu realmente acredito?
Acredito que daqui a algum tempo, a gente vai se encontrar pela vida afora, com outra cabeça e com toda certeza com o coração em outro compasso.
Te olho e duvido de cada palavra minha
– Meu desespero se ainda te interessa saber, é me dividir entre desejar seu bem acima de absolutamente tudo, e torcer pra te encontrar com alguém muito melhor que eu, capaz até de te fazer rir de tudo que nós vivemos…e esse egoísmo que me corrói, de querer te encontrar ainda me querendo e me achando toda essa infinidade de coisas que nunca fui!
Preciso ir.

E fui.